Obituário(s)
Esto lo escribió un pana de Sao Paulo a propósito de la muerte de Lloyd Knibb
Obituário(s)
Por Bruno Lancelotti
Aos 33 anos, já lidei com mortes e falecimentos como pouca gente da minha idade. Enterrei pai, avô e avós. Hoje estive o dia inteiro na rua, tentando resolver pendências do inventário do meu velho, falecido em 1984. Em meio a romaria bancária, cheio de papeis, eu também pensava como será o começo e desfecho do inventário da minha avó, recém falecida. Lidar com isso desgasta qualquer um. Física e mentalmente. Afetivamente. Perdi o dia em meio à burocracia e me desliguei da internet e das notícias.
Minha última missão de sexta era bem mais bacana: ir ao SESC Pompéia, assinar uns documentos e depois relaxar ouvindo um som. Mas como uma sina assombrosa de sexta-feira 13, acessei o celular e me deparei com outra triste notícia: faleceu também Lloyd Knibb, baterista dos Skatalites, aos 80 anos. O baque é forte - até porque já ando sensível com a rotina descrita acima. Eu já sabia há alguns dias que ele havia descoberto um câncer terminal no fígado. E sabia que ele havia embarcado pra Jamaica, sem dores, para se despedir da família. Inclusive do seu pai, sim, pai, que com mais de 100 anos ainda joga dominó, bebe cerveja e olha sem pudores para as jamaicanas.
Saber da notícia aqui no SESC me traz memórias muito especiais. Aqui vivi o começo das minhas experiências ao lado do mestre inventor do beat do ska. Em 2007, no teatro e na choperia, produzi meus primeiros shows dos Skatalites. O registro está num DVD, chamado Arena, lançado um ano após aqueles shows memoráveis. Os mais atentos me verão logo ao lado/atrás da bateria, admirando aquele velhinho e suas baquetas. Lembro de ter comentado com meu sócio Rodrigo Cerqueira, baterista, que a arte de Lloyd merecia um registro especial. Um documentário, vídeo aulas, enfim, algo que mostrasse ao mundo um pouco do que ele havia criado. Não deu tempo. Assim como não houve oportunidade de me despedir do mestre.
Lloyd recentemente fez sete shows aqui no Brasil. Tocou muito, comeu pouco e parecia sentir algum incômodo. Sentia muito calor, algo atípico para um caribenho que estava por aqui em pleno outono. Tocou para cerca de 100 mil pessoas na Virada Cultural de São Paulo. Visitou também Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Brasília e fez seu penúltimo show em Campinas, dia 22 de Abril, antes de embarcar para Lima, onde fez sim sua derradeira apresentação. Não pude me despedir dele apropriadamente, como gostaria. Fui horas antes ao aeroporto levar parte do grupo para tomar seu voo ao Peru. Voltei pra casa achando que aquela poderia ter sido a última vez que o veria. E foi. Agora bateu uma saudade monstro de todos os velhinhos que perdi ultimamente. Que vocês descansem, merecidamente.
Mestre (1931-2011)
Mestre (1931-2011)